Sabe aquele tipo de pessoa que não apenas sente, mas simplesmente sabe que é deixada para trás, esquecida por aqueles em que mais confiava? Aquele ser que não é menos humano que ninguém, mas, mesmo assim, às vezes parece ser subestimado até pela vida? É, digamos que essa sou eu. Ou melhor: costumava ser eu.Nasci em uma família simples, grande, não muito cheia de luxos e frescuras e, principalmente, numa família feliz. Meus avós são meus pais-estepe e tenho uma irmã mais velha, Clara, que sempre foi meu exemplo e minha inspiração durante toda minha infância e adolescência (tenho que admitir: continua sendo).
Clara sempre foi o modelo de filha e neta perfeita: meiga, bonita, esportiva e com média nove no boletim. Já eu, não tive muitas médias baixas, porém, não se pode dizer o mesmo sobre o resto; sei que quando alguém me chama de fofa não é um elogio ao caráter, mas sim pelo fato de que uso suéteres largos e calça 42, que quando minha avó diz que sou bonita é porque está sem óculos, e também sei que já acordei às 6h da manhã no intuito de correr, mas, ao abrir a geladeira, me deparei com os restos de pizza da noite passada, sendo que eu amo pizza fria.
Desde pequena quis ser bióloga e já obtinha uma coleção de decepções pessoais; no parquinho minhas amigas só queriam se aproveitar do meu lanche, no fundamental do meu Dever de Casa e no ensino médio... Bem, eu resolvi, finalmente, parar de chorar por pessoas que já me chamaram de “melhor amiga” e que depois me chutaram. Decidi colocar a Lei do Talião em prática e só ignorar. Infelizmente, “só ignorar” se torna uma tarefa complicada quando você ganha de brinde um apelido como “Butter” no pacote do ensino médio. Para o bem da minha auto-estima e da minha imaginação, fazia de conta que era um diminutivo carinhoso para “Butterfly”, já que eu amo borboletas. E, bem, meu único e melhor amigo, Thomas, me chamava assim.
Como já deu para perceber, nunca me achei e ninguém nunca me achou bonita (excluindo minha mãe), algo que sempre me fez ter mais confiança na área da inteligência. Quer dizer, confiança eu nunca tive em abundância, mas tento acreditar todos os dias que tenho pelo menos o suficiente. Quem dera se eu tivesse tanta confiança quanto o meu medo de não conseguir realizar meus sonhos, onde o vestibular, até ali, era o que eu mais temia.
Passei o terceiro ano inteiro me preparando, surtando e praticando os exercícios respiratórios que meu professor de Yôga havia recomendado. Foram anos focados em meses de estudo, preocupação e nervosismo, onde tudo que eu queria era fazer aquela maldita prova de uma vez.
Chegando o primeiro dia, praticamente tive uma overdose de suco de maracujá, sem contar que não aguentava mais as pessoas dizendo “mantenha a calma” – aquela frase clássica para os momentos em que não se tem nada melhor a dizer. Por que não apenas fazem uma combinação de silêncio + um abraço? É muito mais útil, a não ser que haja algo como “Querida, não se esqueça que Michelle com apenas um ‘l’ quer dizer sábia, então imagine com dois”, como meu avô disse ao se despedir.
Finalizando os dias de tormenta e esperando o que parecia ser uma eternidade, descobri que não tinha sido aceita de primeira na universidade dos meus sonhos. E, para piorar, uma “melhor amiga” minha de infância que copiava meus deveres, fez o favor de realizar este sonho por mim.
- Você é inteligente sim, Mi! E se serve de consolo, eu sei como você se sente. – Clara ainda tentava, coitada.
Depois alguns dias chorando, xingando a vida de “traíra” e brigando até com a caixa de correio... Eu continuei chorando, xingando a vida e brigando com a caixa de correio. Thomas veio me visitar e tentou me alegrar com sua coleção de gibis (o que nunca fez muito sucesso) e fez até alguns truques de mágica, mas, “sem querer” pisei em sua cartola. Fazer o papel de boa amiga nunca foi meu forte.
Ninguém conseguiu me animar durante praticamente um mês, até que meu avô, como sempre, chegou e disse aquelas sábias palavras que ninguém nunca vai conseguir fazer o mesmo impacto:
- Sabe filha, “A vida pode te derrubar, mas você resolve quando é hora de levantar.” – no momento em que ele disse isso eu estava devorando o meu 276354º brigadeiro de panela, sentada no chão da sala e assistindo – é, eu sei – “Bebês Geniais 2”. Congelei.
- Nossa vô, que frase linda. Onde foi que você viu isso?
- Acho que foi naquele filme, "Karatê Kid". Bom filme, bom filme... – e foi saindo.
Fiquei pensando nisso durante um tempo, sentindo-me uma completa idiota. Como eu consegui ser tão patética, uma completa perdedora? E, enquanto ainda estava no modo pensativo, o telefone toca. Era o Thomas.
- E aí, Butterfly, pronta pra sair do casulo?
- Oi, Tom, desembucha logo, vai. – Ao dizer “desembucha” lambuzei todo o telefone de chocolate. É muita classe para uma garota só.
- Ok, ok... Tenho ótimas notícias. Está na frente do computador? Não? Bem, não importa, porque o melhor amigo do mundo aqui acabou de ver a lista da segunda chamada de Ciências Biológicas!
- E...?
- E, você está nela, boboca! Pode começar a bater as asas, Michelle, porque você vai voar alto! Ah, e eu perdi aquele livro que você me emprest... – Larguei o telefone e saí correndo pela casa, parecia estar realmente voando feito uma borboleta. Nunca tinha me sentido tão leve!
Hoje, olhando para trás, mal acredito que cheguei a pensar que alguém realizaria os meus próprios sonhos por mim, porque isso é uma tarefa impossível de acontecer. E, se vocês querem saber, a “filosofia Karatê Kid” se tornou a minha filosofia de vida; só que, em vez de apenas levantar, resolvi levantar vôo.
Atenciosamente, Michelle Turner – Estagiária do Greenpeace.
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